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Archive for the ‘Rua da Bahia’ Category

Por: André Franchini Campos de Pinho, Chogüi Pissolato Silvera e Gustavo Pereira Pinto – Dê crédito aos autores!

1 A Rua da Bahia

1.1 Histórico

Todos os caminho iam à Rua da Bahia. Da Rua da Bahia partiam vias para os fundos do fim do mundo, para os tramontes dos acabaminas… A simples reta urbana… Mas seria uma reta? Ou antes, a curva? Era a reta, a reta sem tempo, a reta continente dos segredos dos infinitos paralelos. E era a curva. A imarcescível curva, épura dos passos projetados, imanência das ciclóides, circulo infinito… Nós sabíamos, o Carlos tinha dito. A Rua da Bahia era rua sem princípio nem fim. Descíamos. cada um de nós era um dos moços do poema. Subíamos. ‘Um moço subia a Rua da Bahia (Pedro Nava)

Na primeira cidade planejada do Brasil, a Rua Bahia foi traçada como eixo de ligação entre a parte administrativa, erguida na Praça da liberdade, e o centro comercial que surgiu ao redor da Praça da Estação e da Avenida Afonso Pena. No entanto a rua extrapolou o limite de mero “corredor” a um ativo centro cultural, com a presença de artistas, intelectuais e jornalistas nas suas livrarias e bares.

Acervo Museu Histórico Abilio Barreto

Fonte: Acervo Museu Histórico Abílio Barreto

[…] agora estamos a três quarteirões do Bar do Ponto, que é o centro. Eu me referia ao centro da cidade, mas logo veria que aquilo era o centro de Minas, do Brasil, do mundo. Mundo vasto mundo. (Pedro Nava)

A Rua da Bahia, principalmente o trecho entre as avenidas Afonso Pena e Álvares Cabral, representava o coração da cidade, como disse Pedro Nava, o centro, não só de Belo Horizonte, mas do mundo, uma vez que diversos intelectuais, belo-horizontinos e até estrangeiros se reuniam nos diversos atrativos da rua. Tudo acontecia e se fazia em torno da Rua da Bahia.

O Café Estrela (localizado onde até recentemente funcionava o Bahia Shopping) tornou-se famoso porque foi ponto de encontro dos intelectuais mineiros que, na década de 20, integraram o movimento modernista literário, tais como Carlos Drummond de Andrade, Emilio Moura, Abgar Renault, Milton Campos, Pedro Nava, a “nata” da inteligência belo-horizontina. Principalmente após a instalação da primeira universidade da cidade, diversas pessoas vinham de outras cidades e estados para estudar em Belo Horizonte, aumentando ainda mais o número de personagens influentes.

Seria Carlos Drummond ou Aníbal machado que disse: – Cidade casmurra e provinciana onde nada acontece. Dorme a tradicional família mineira. Vocês querem ver? Vou ficar pelado agora e subir esta avenida, e nada vai acontecer. E assim foi. Nada aconteceu. (Milton Campos)

Além dos cafés, outro ponto de encontro importante na rua eram as livrarias, Itatiaia e Francisco Alves. Pedro Nava depõe sobre a Livraria Francisco Alves:

O Abgar, o Milton, o Carlos, o equilibrado Capanema e o abastado Gabriel estavam sempre em fundos e, como tal, eram os primeiros admitidos à abertura dos caixotes – cerimonial que só participavam os iniciados e que se realizava no corredor vizinho à jaula do livreiro Castilho.

Na esquina com a Avenida Augusto de Lima, existia o hotel mais importante da cidade, o Grande Hotel. Era comum da sacada do segundo andar, políticos discursarem para a população belo-horizontina. Além de políticos, personagens importantes já se hospedaram no hotel, como Santos Dumont, Olavo Bilac, Rui Barbosa, Osvaldo Cruz, Getúlio Vargas, entre outros. Em 1957, o hotel foi demolido para a construção do edifício Aracângelo Maletta, inaugurado em 1961.

No Térreo, do então novo prédio, existiam diversos bares, entre eles os ainda existentes, O Pelicano, Lua Nova e Cantina do Lucas, sendo que os dois últimos foram movimentados pontos de encontro de intelectuais e jornalistas. “Dizem que o freguês tomava o aperitivo vespertino no Lua Nova e ia rebater, noite adentro, na cantina do Lucas” (Salles, 2005).

Outra característica da Rua da Bahia eram os bondes.

Minha vida é esta. Subir Bahia, descer floresta. (Pedro Nava).

Essa citação se refere ao caminho feito pelo bonde, subindo a Rua da Bahia e descendo até o bairro Floresta. Os bondes elétricos subiam e desciam nas linhas que levavam à Serra, Abrigo Pernambuco (atual Savassi) e, posteriormente Carmo e Sion. A princípio o ponto inicial ficava na Afonso Pena com Bahia (daí o nome Bar do Ponto), mas depois foi descentralizado, inclusive com a construção de dois abrigos ainda na Afonso Pena, próximos da Praça Sete.

Houve casos em que o bonde saiu dos trilhos e colidiu com casas e estabelecimentos, como aconteceu certa vez, na curva da esquina de Bahia com Gonçalves Dias.

Nos bondes viajava toda a população belo-horizontina, homens brancos, negros e mulatos, magistrados e operários, moços e velhos, ricos e pobres. O bonde, de certa forma também era um centro de convívio social e cultural importante na Rua da Bahia. Com o crescimento da cidade, os bondes foram sendo substituídos pelos trólebus, ônibus e lotações, até desaparecerem por completo.

A baleira da Rua da Bahia
É bela como as balas são divinas.
Ou divina é a baleira, e suas balas
Imitam o caramelo de seus olhos?

Carlos Drummond – Menção à Confeitaria Suíça.

A Rua da Bahia também tinha importância no carnaval de rua belo-horizontino. Nas décadas de 30 e 40, além do movimento na Afonso Pena, a folia se concentrava no quarteirão da Rua da Bahia, entre a avenida e a Rua dos Goitacazes, e em torno do Trianon e da Elite (movimentados bares da época). Mais tarde com o fechamento do Trianon e da Elite coincidiria com a decadência do carnaval de rua; ainda assim, o Gruta Metrópole (outro movimentado bar da rua) acolheu os últimos remanescentes da boemia carnavalesca.

Na primeira metade da década de 50, após o fechamento dos bares do Ponto e do Trianon, começara a funcionar a Gruta Metrópole, que foi sem dúvida, o ultimo reduto da vida boêmia daquela rua. Lá, reuniam-se “intelectuais, jornalistas, políticos, artistas, comunistas, professores, empresários, funcionários públicos, esportistas, barbeiros, tudo que se pode imaginar. Todos discutiam tudo: política, esportes, negócios, artes, filosofia, literatura, segredos de família. A maledicência e os mexericos completavam o cardápio variado” (Salles, 2005).

Conversa de botequim não instrui, mas informa. (Antônio Pinto Coelho)

A Gruta era muito mais do que um bar, representava a vida da capital mineira. Era considerado por muitos como sua casa, sua família, a solução para seus problemas, muito mais que um simples ponto de encontro. Assim como o valor que as livrarias Itatiaia e Francisco Alves representavam para a cultura, a Gruta Metrópole ocupou na Rua da Bahia, assim como o Estrela, 50 anos antes, representava como referência para a vida belo-horizontina.

Após a morte de seu dono, Jéferson Pinto, sua esposa assumiu a direção, mas este nunca mais foi o mesmo. “Embora os esforços para mantê-la, entrou em decadência, ao cair nas mãos inexperientes da mulher do Jéferson. Como não possuía qualquer vivência comercial, ela ficou sem orientação e apoio. Por incrível que pareça, como era evangélica, pretendeu não vender bebida alcoólica no botequim” (Salles, 2005).

Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia.
Fechado para sempre.
Não é possível, minha mocidade
Fecha com ele um pouco.
Não amadureci ainda bastante
Para aceitar a morte das coisas
Que minhas coisas são, sendo de outrem,
E até aplaudi-la, quando for o caso,
(amadurecerei um dia?)
Não aceito, por enquanto, o Cinema Glória,
Maior, mais americano, mais isso-e-aquilo.
Quero é o derrotado Cinema Odeon,
O miúdo, fora-de-moda Cinema Odeon.
A espera na sala de espera. A matinê
Com Buck Jones, tombos, tiros, tramas.
A primeira sessão e a segunda sessão da noite.
A divina orquestra, mesmo não divina,
Costumeira. O jornal da Fox. William S. Hart.
As meninas-de-família na platéia.
A impossível (sonhada) bolinação,
Pobre sátiro em potencial.
Exijo em nome da lei ou fora da lei
Que se reabram as portas e volte o passado
Musical, waldemarpissilândico, sublime agora
Que para sempre submerge em funeral de sombras
Neste primeiro lutulento de janeiro
De 1928.

Carlos Drummond de Andrade

Juntamente com o crescimento da cidade, ocorria o “encolhimento” da Rua da Bahia. Prédios e casarões antigos (muitos com enorme valor histórico e cultural) davam lugares ao Modernismo belo-horizontino. A cidade jardim, cidade nova, que valoriza o que é novo, moderno e abandona seu passado. Cinemas, casarões e redutos culturais perderam lugar na paisagem, sendo demolidos ou despercebidos. Os jardins da cidade sumiam e levavam consigo o nome mais romântico que a cidade já teve, passando a ser a capital moderna, sem a vida que tinha anteriormente. Agora ninguém se conhece mais, ainda se sobe e desce a Rua da Bahia, porém sob ritmo frenético de uma das maiores cidades brasileiras. O Café Estrela deu lugar ao símbolo do modernismo consumista, os democráticos bondes deram lugar a ônibus, onde o que fazem é empurrarem-se uns aos outros sem nenhuma conversa, e carros que buzinam por todo o percurso. A Rua da Bahia, hoje sim, é apenas um “corredor” que liga o centro administrativo (o qual já tem planos de se mudar) ao centro econômico da cidade.

Uai, gente, o que esta cidade veio fazer aqui nesta rua? (Augusto Degois)

1.2 Momento Atual

Hoje a Rua da Bahia perdeu seu valor cultural tradicional e desponta como um importante corredor de tráfego de veículos da cidade. Se antes era um ponto de parada para a comunidade, hoje é apenas um local de passagem, onde não mais se produz pensamento ou idéias.

Para o jornalista Luiz Otávio Horta, autor do livro “Histórias da Rua da Bahia e Cantina do Lucas”, e que viveu ativamente o passado da região, “a Rua da Bahia é como um retrato dependurado na parede, é simplesmente mais uma via condutora de tráfego. Até a década de 70, foi um ponto de fundamental importância para a história cultural e política de Belo Horizonte”.

E é nessa época que a cidade, norteada pela expansão imobiliária e ideais de crescimento, acabou por derrubar inúmeras construções históricas para dar lugar a edifícios capazes de abrigar mais pessoas. Ainda assim, hoje é possível encontrar na rua e seu entorno algumas marcas do passado.


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